Novos desafios da pesquisa qualitativa no universo virt

 

 

 

 

Este artigo foi publicado no Isaúde.

Tendo o ciberespaço como um rico contexto para a comunicação, com grande número de usuários, novas tecnologias de pesquisa emergem em resposta à questão da multiplicidade e complexidade que envolve a evolução tecnológica em si, em especial no campo da sociabilidade e apropriação, já que “o agente de mudança não é a tecnologia em si, e sim os usos e as construções de sentido ao redor dela”.

A netnografia é um método de pesquisa qualitativa que tem características resultantes da etnografia e começou a ser explorada de acordo com o surgimento de comunidades virtuais. Para realizar uma pesquisa netnográfica, o pesquisador será inserido na comunidade pelo ambiente on-line, onde terá o ciberespaço como seu campo de pesquisa. Trata-se de uma transposição virtual das formas de pesquisa face a face e similares, que apresenta vantagens explícitas, tais como consumir menos tempo, ser menos dispendiosa e menos subjetiva.

Considerada menos invasiva, essa metodologia permite ao pesquisador comportar-se como se estivesse em uma janela, dirigindo o seu olhar de cientista ao fenômeno em estudo, fora de um espaço fabricado para pesquisa. Pode, nesse cenário, observar comportamentos naturais de uma comunidade durante o seu funcionamento, com uma possibilidade de interferência menor. Entretanto, essa característica, que se constitui como uma vantagem, é simultaneamente desvantagem, perdem-se informações importantes, oriundas das comunicações não verbais e outras percepções sensoriais, além de ficar à mercê de nuances obnubiladas pelo texto escrito, emoticons etc.

A etnografia, da qual decorre a netnografia, de acordo com Kozinets (2002), tornou-se popular em pesquisa sociológica, cultural e de consumo, como também em outros campos científicos sociais. Baseia-se na participação e na observação em determinadas áreas culturais, isto quer dizer que a etnografia se baseia no conhecimento local, particular e de maneira específica. É um método de investigação de origem antropológica e que ajuda o pesquisador no trabalho de observação e na inserção do seu trabalho no campo, manifestam culturas, crenças, valores e costumes, servindo para ordenar, guiar e direcionar o comportamento de sociedade ou grupo social.

No Brasil, as pesquisas começaram no final da década de 80, em discussão sobre a compreensão das comunidades digitais, modelo metodológico, e têm sido ferramenta rica para esses estudos pertinentes ao campo da comunicação, da cibercultura e dos blogs. A netnografia é um meio cada vez mais utilizado nas comunidades acadêmicas e científicas, visto que os recursos tecnológicos de interação virtual e a distância têm se tornado acessíveis a um número crescente de pessoas, em especial as do campo das ciências humanas e da psicologia.

Tendo em vista sua ascensão no novo século, a pesquisa netnográfica proporciona ao pesquisador diversas vantagens, pois demanda menos tempo, é mais barata e menos subjetiva, além de ser menos evasiva. Porém, existe ainda a desvantagem de não haver um contato físico off-line e de a escrita se mostrar na forma interpretativa da situação, ou seja, na forma como o fenômeno é visto, tornando, assim, o registro suscetível à imprecisão.

No âmbito da saúde mental, a netnografia revela-se promissora como metodologia de investigação em diferentes perspectivas, isso porque as tecnologias de informação e comunicação têm promovido significativas transformações nas formas de comportamento e interação entre as pessoas, com consequentes efeitos nas formas de subjetivação e de organização psíquica, desafios a serem enfrentados pelos profissionais de saúde e instituições formadoras.

Referências:

Amaral, A., Natal, G., & Viana, L. (2000). 34 Sessões do imaginário Cinema Cibercultura Tecnologias da Imagem comunicação cibernética NETNOGRAFIA COMO APORTE METODOLÓGICO DA PESQUISA EM COMUNICAÇÃO DIGITAL, 34–40.

Bowler, G. M. (2010). Netnography: A Method Specifically Designed to Study Cultures and Communities Online. The Qualitative Report, 15(5), 1270–1275.

Kozinets, R. V. (2010). Netnography: Doing ethnographic research online. International Journal of Advertising, 29(2), 328–330. https://doi.org/10.2501/S026504871020118X

Kozinets, R. V. (2002). The field Behind the Screen: using netnography for marketing research in online communities. Journal Marketing Research, XXXIX(February), 61–72.

  • Mônica Ramos Daltro / CRP 03/942

    Psicóloga, Psicanalista, Doutora em Medicina e Saúde Humana pela Escola Bahiana de Medicina e Saúde Pública. Prof.ª Adjunta da Escola de Medicina e Saúde Pública no curso de graduação em Psicologia e na Pós-Graduação em Medicina e Saúde Humana.

  • Jailson Vieira Machado /

    Enfermeiro . Mestrando em Tecnologias em Saúde pela Escola Bahiana de Medicina e Saúde Pública. Professor dos cursos de enfermagem da Faculdade Estácio e Faculdade Pitágoras em Feira de Santana.

  • Tatiana Caldas Duarte Oliveira /

    Fisioterapeuta, Mestranda em Tecnologias em Saúde pela Escola Bahiana de Medicina e Saúde Pública.

  • Vitor Souza Mascarenhas /

    Psicólogo, Mestrando em Tecnologias em Saúde pela Escola Bahiana de Medicina e Saúde Pública. Especialista em Terapia Cognitiva, Terapia Analítico – Comportamental e Neuropsicologia e Reabilitação.

Tags: No tags

Add a Comment

You must be logged in to post a comment