Mensurando a empatia e o desengajamento no cyberbullying

As pessoas não são apenas agentes autônomos, mas também funcionam como produto de uma interação recíproca de eventos intrapessoais, comportamentais e ambientais (Bandura, 1986). Portanto, esta investigação fundamenta-se na Teoria Social Cognitiva, que adota uma perspectiva agentista. Especificamente, nesta investigação, exploramos a relação entre dois fatores intrapessoais que comprovadamente desempenham um papel importante no envolvimento do cyberbullying, que são a empatia e o desengajamento moral.

O cyberbullying é um problema generalizado em nossa sociedade, pois aumenta e causa consequências danosas na vida de crianças e adolescentes (Kowalski et al., 2014). Diante disso, é de suma importância conhecer os fatores que atuam na prevenção ou reforço desse tipo de comportamento (Lo Cricchio et al., 2020). Muitos fatores têm sido estudados em relação ao cyberbullying, como empatia e Desengajamento Moral (DM) (Marín-López et al., 2020Ferreira et al., 2021).

O objetivo deste estudo foi explorar como adolescentes relatam empatia em contextos online e desengajamento moral em incidentes de cyberbullying, e como esses dois construtos estão relacionados.

Para atingir esse objetivo, três estudos foram conduzidos considerando a necessidade de desenvolver novos instrumentos para desvendar essa nova abordagem de medir empatia e desengajamento moral.

No primeiro estudo, adaptamos a versão em português do Quociente de Empatia para contextos online, o que resultou no Quociente de Empatia em Contextos Virtuais (EQVC).

Também desenvolvemos o Process Moral Disengagement in Cyberbullying Inventory (PMDCI), a fim de avaliar o desengajamento moral nessas situações específicas. No segundo estudo, foram realizadas análises fatoriais exploratórias (N = 234) desses instrumentos.

Finalmente, no terceiro estudo, foram realizadas análises fatoriais confirmatórias (N = 345) de ambos os instrumentos. Esses resultados mostraram como os adolescentes relataram empatia em contextos online e desengajamento moral em incidentes de cyberbullying.

Esses resultados mostraram como os adolescentes relataram empatia em contextos online e desengajamento moral em incidentes de cyberbullying.

Especificamente, a empatia revelou uma estrutura bidimensional incluindo dificuldade e autoeficácia na empatia (α de Cronbach = 0,44, 0,83, respectivamente), enquanto o desengajamento moral do processo revelou quatro questionários unidimensionais incluindo locus de comportamento, agência, resultado e receptor (α de Cronbach = 0,76, 0,65, 0,77, 0,69, respectivamente).

Além disso, também foi realizada análise correlacional de ambos os construtos, sendo também considerada a variável sexo.

Os resultados mostraram que a dificuldade em ter empatia foi negativamente associada ao sexo (com as meninas revelando mais dificuldade do que os meninos) e a todos os mecanismos de desengajamento moral, exceto o comportamento.

O desengajamento moral correlacionou-se positivamente com o sexo, sugerindo que os meninos se desengajaram mais moralmente do cyberbullying.

Os instrumentos forneceram novos insights sobre como a empatia e o desengajamento moral podem ser específicos para contextos on-line e situações de cyberbullying, e como eles podem ser usados em programas educacionais para promover a empatia e obter informações sobre o desengajamento moral dentro desse fenômeno.

 

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA

Francisco SM, da Costa Ferreira P, Veiga Simão AM, Pereira NS. Measuring empathy online and moral disengagement in cyberbullying. Front Psychol. 2023 Apr 27;14:1061482. doi: 10.3389/fpsyg.2023.1061482. PMID: 37179897; PMCID: PMC10172580.